Olá amigas e amigos, depois de uns dias de cama com uma gripe tremenda cá estou eu de novo, com esta história:
(...) ao tal criador que precisou de levar o homem ao forno (...) Começou ele por fazer com barro uma figura humana, de homem ou de mulher é pormenor de somenos, meteu-a no forno e atiçou-lhe o necessário lume. Passando o tempo que lhe pareceu certo, tirou-a de lá e, meu Deus, caiu-lhe a alma aos pés. A figura tinha saído negra retinta, nada parecia com a ideia que ele tinha do que deveria ser o seu homem. No entanto, talvez porque ainda estava no começo da actividade, não teve o ânimo de destruir o falhado produto da sua falta de jeito. Deu-lhe vida, supõe-se que com um piparote na cabeça e mandou-o embora. Tornou a modelar outra figura, meteu-a no forno, mas desta vez teve o cuidado de se acautelar com o lume. Consegiu-o, sim, mas demasiado, pois a figura saiu branca como a mais branca de todas as coisas brancas. Ainda não era o que ele queria. Contudo, apesar do novo falhanço, não perdeu a paciência, deve mesmo ter pensado. Coitado, a culpa não foi dele, enfim, deu também vida a este e pô-lo a andar. No mundo havia já portanto um preto e um branco, mas o canhestro criador ainda não tinha logrado a criatura que sonhara. Pôs uma vez mais mãos á obra, outra figura humana foi ocupar lugar no forno, o problema, mesmo não existindo ainda o pirómetro, devia ser mais fácil de solucionar a partir de agora, isto é, o segredo era não aquecer o forno nem de mais nem de menos, nem tanto nem tão pouco e sendo esta conta de três, deveria ser de vez. Não foi. É certo que a nova figura não saiu preta, é certo que não saiu branca, mas saiu amarela. Outro qualquer talvez tivesse desistido, teria despachado á pressa um dilúvio para acabar com o preto e o branco, teria partido o pescoço ao amarelo, o que se poderia considerar como a conclusão lógica do pensamento que lhe passou pela mente em forma de pergunta. Se eu própio não sei fazer um homem capaz, como poderei amanhã pedir-lhe contas dos seus erros (...).
A Caverna - José Saramago
Ora se o criador enganou-se, e ninguém lhe pediu conta dos erros porque havere-mos nós, simples mortais ser castigados aos olhos da igreja por usar preservativo, por nos divorciar-mos, por não irmos á missinha todos os Domingos, entre outras mais ou menos polémicas. Como pode a igreja exigir isso de nós e ser capaz de ter apoiado cruzadas e ainda hoje ser apologista de certas guerras. Deus deu-nos o dom da vida e da estupidez, em relação á vida teremos que vivê-la mas em relação á estupidez poderiamos aprender não só com os nossos estupidos erros, mas também com os dos outros ao longo da História, para que todos pudessem viver uma vida melhor.
Existem duas coisas infinitas neste mundo, o Universo e a estupidez humana. E não estou tão certo quanto ao Universo.
Albert Einstein